Penso que é bom amar gente, independente de um lembrete
Sou alfabetizada num beijo
Analfabeta num tapa
Todo o tempo.
Por Lu Dornaicka
Trecho do Texto Busca
…Seu traço, em tudo, seu marco
Tem ponta, tempo que termina
Tem poema, tempo Leminski
Tem porteira, tempo entrada
Tem ponteiro, tempo direção…
Seu traço, em tudo, seu marco
Tem pobreza, tempo contrariado
Tem ponte, tempo passagem
Tem pouco, tempo criativo
Tem posição, tempo foco…
Seu traço, em tudo, seu marco
Tem poder, tempo Deus
Tem poente, tempo acabando
Tem poeira, tempo partida
Tem ponto, tempo final
Tempo que passa, sempre passa
Não atrasa, nunca atrasa.
Por Lu Dornaicka
Trecho do Texto TEMPO (na imagem, minha saudosa avó)
Retire pro andamento
Com sabedoria
Siga pro enfrentamento
Flor, exposição
A vida em movimento
Equivocada decisão
Miséria vem contrária
Fome exposta
Realidade Adversária
A vida em involução
Solidário enche sentido
Insiste, levanta bandeira, persiste
Pão repartido
Vira intenção
A Vida em decisão
Ame constantemente
Deus eleva, sustenta
Ética, independente da proposta
Valores dando respostas
A vida em Crença
Extravase no grito
Aroma de lembrança
Mato, grilo
Música que dança
Encaixe, preciso
Abraço, atenção
Manjar no paladar
A vida em sensação
Bota fé, o ponta pé
Se coloque no enredo
Mergulhe, mais fundo, entre com tudo
A vida, movida, aberta, na espreita.
Por Lu Dornaicka
Texto Faça Valer
Sozinha
Observo melhor as cores
Os excessos
Os afetos
Que me faltam
ou me afetam
Sem ninguém por perto
Meus olhos
ficam mais abertos
Imersos num vazio
Recheado
de detalhes doces
Longe das cortes
Sento no meio-fio
dos meus pensamentos
na beira do que eu invento
E aproveito
O lado bom
Da solidão
Por: Zelia Duncan
O ser humano nasce pronto, mas incompleto. Essa incompletude se resolve na vida e nas relações sociais. Ser mulher, assim como ser homem, mais do que um fator biológico, é um fenômeno social. Não somente os papéis sociais, mas a própria subjetividade se compõe a partir de modelos que se fazem e desfazem de acordo com a época, a cultura, a idade, a necessidade.
O mal que a sociedade fez, a nós mulheres, assim como fez aos homens, foi a imposição de um único papel social, de um único modelo. Ao contrário dos gregos que, mesmo sendo bastante opressora com as mulheres, as representavam em papéis muito distintos, como a guerreira, a mãe, a esposa ciumenta, a mística, a sedutora, etc, nos foi dado um lugar restrito, confinado, sem opção, o lugar de santa, dona de casa, esposa casta, mãe. Mas e o lugar dos homens era um bom lugar?
O homem, mesmo ocupando o papel de opressor, também sofria a restrição de um papel social excessivamente rígido: homens não choram, são provedores da família, têm que ser viris, etc. E a luta das mulheres, ao contrário de ser contra os papéis sociais opressores, se tornou, em uma determinada perspectiva, contra os homens.
Ainda permanece nas lutas que travamos um ranço, uma reatividade, uma vingança, não somente contra os homens, mas contra a maternidade, os trabalhos domésticos, o cuidados com os filhos, a fragilidade, a sensibilidade, ou tudo que nos lembre aquilo que um dia fomos. E terminamos nos tornando um ser híbrido, que nasceu não de uma ação, mas de uma reação, um ser que nega a si mesmo, nega seu corpo, seus hormônios, suas lágrimas pré menstruais, e busca cada vez mais conquistar espaços sociais, honras, que nunca fizeram felizes aos homens e hoje oprime e apaga mulheres cada vez mais sozinhas e poderosas. Que percebem, tarde demais, devido ao limite de nosso relógio biológico, que não era nada daquilo que queriam.
Quem somos mulheres de hoje? Mulheres cada vez mais independentes, mas talvez excessivamente independentes, ou oprimidas pela independência. Por isso mulheres maravilhosas, incríveis, criativas, fantásticas, belas, mas sozinhas, aprisionadas por um plano, um projeto de vida construído em reação a opressão a que fomos submetidas. A hora agora nos exige um novo passo: não se trata mais de tomar um lugar, mas de criá-lo: qual o lugar de nossa diferença, qual o lugar que nos faz florescer? Precisamos construir um espaço que nos caiba e este espaço deve ser necessariamente complexo, como nosso corpo, nossa potencialidade. A mulher expande pra dentro, mas também explode pra fora em forma de broto, filho criação, invenção.”
Por: Viviane Mosé
O valioso tempo dos maduros
Contei meus anos e descobri que terei menos tempo para viver daqui
para a frente do que já vivi até agora.
Tenho muito mais passado do que futuro.
Sinto-me como aquele menino que recebeu uma bacia de cerejas…
As primeiras, ele chupou displicente, mas percebendo que faltam
poucas, rói o caroço.
Já não tenho tempo para lidar com mediocridades.
Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflamados.
Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram,
cobiçando seus lugares, talentos e sorte.
Já não tenho tempo para conversas intermináveis, para discutir
assuntos inúteis sobre vidas alheias que nem fazem parte da minha.
Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas, que apesar
da idade cronológica, são imaturos.
Detesto fazer acareação de desafetos que brigaram pelo majestoso cargo
de secretário geral do coral.
‘As pessoas não debatem conteúdos, apenas os rótulos’.
Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos, quero a essência,
minha alma tem pressa…
Sem muitas cerejas na bacia, quero viver ao lado de gente humana,
muito humana; que sabe rir de seus tropeços, não se encanta com
triunfos, não se considera eleita antes da hora, não foge de sua
mortalidade,
Caminhar perto de coisas e pessoas de verdade,
O essencial faz a vida valer a pena.
E para mim, basta o essencial!
Por: Mário de Andrade
O estudo da gramática não faz poetas. O estudo da harmonia não faz compositores. O estudo da psicologia não faz pessoas equilibradas. O estudo das “ciências da educação” não faz educadores. Educadores não podem ser produzidos. Educadores nascem. O que se pode fazer é ajudá-los a nascer. Para isso eu falo e escrevo: para que eles tenham coragem de nascer. Quero educar os educadores. E isso me dá grande prazer porque não existe coisa mais importante que educar. Pela educação o indivíduo se torna mais apto para viver: aprende a pensar e a resolver os problemas práticos da vida. Pela educação ele se torna mais sensível e mais rico interiormente, o que faz dele uma pessoa mais bonita, mais feliz e mais capaz de conviver com os outros. A maioria dos problemas da sociedade se resolveria se os indivíduos tivessem aprendido a pensar. Por não saber pensar tomamos as decisões políticas que não deveríamos tomar.
Por: Rubem Alves