O CAMINHO, CONTORNO DO DIVINO

Pêssego sabor, na cor que não poupa o açúcar na polpa, na época

“Para tudo há um tempo, para cada coisa há um momento debaixo dos céus”

Eclesiastes nos tira o véu

A fruta de Outubro, não se saboreia igual em Maio

Estação fria, chove sem aviso,

Vem de lado, de frente, cede a sede, abastece

Se fecha o tempo e atropela, entristece, faz a molhadela

Relógio quebrado não pára o tempo

Nem perante dor tamanha,

Seguem os dias, seguem as noites, sem diálogo

A lua imponente nem se esconde,

O frio ignora trajes

Lembro então Daquele que me guia

Diante Dele a perfeição

Vento que sopra e tudo desloca

Ainda que não entenda a visão do alto, a manobra

De suas mãos, o melhor agora, o melhor depois

Aquieta-me a confiança

Coloca-me em cobertura

Amplio minha visão por determinação

Tal quando, tempo exato a frente

É do amanhã, se não nessa manhã

Esperança que me entusiasma é mais que meia luz

Resplendor

Por hora, hoje não vigora

Não agora

Que deixe outrora

Que venha na aurora, sem demora

O motivo, o alívio, o toque, a melhor raiz, a graça

Se por um triz o vento bate a janela, movimento me sinaliza Aquele que me leva, Aquele que sempre me faz chegar, Aquele que me eleva pro mal passar.

 Por Lu Dornaicka

 Texto:  O Caminho, Contorno do Divino

NEL

A chuva desavisada, os pés no chão antes da hora.  Estive buscando nos trilhos de uma vidinha regrada, algo que nem sabia, muito menos se queria receber o que vinha.

Como um trovão gritando, amedrontando meu cotidiano, o não ecoou pra mim. Na empresa não havia mais espaço pra minha cadeira, pro meu vocabulário.  Quando percebi, me liberava o lugar onde todos os dias meu tempo se perdia, da manhã me escondia, ao entrar pela porta de vidro que o sol segurava. Estava livre, e por uns segundos essa sensação me elevava. Não entendi porque presa me sentia e chorei ao sair pela última vez.

Há seis anos namorava. Sem salário, com as prestações da cama que não dormiria, a imagem do bolo se desfazia.  Estava derretendo meu sonho daquele ano. Na compaixão e negativa da frase “podemos ser amigos” ele me sorriu e foi buscar em outra o que não achava mais comigo.  Meu tempo vazio, minha imagem desbotada.

Senti o ardor de quem anda no deserto. Uma absoluta e estranha certeza me fez pisar firme na areia.  Inventei um caminho curativo, sonhei um sonho sem restrição e decidi o que buscar pra superar os quarenta graus do chão.

Meu currículo foi pra várias gavetas, envelopes, agências, empresas, mãos alheias, sites e links.  Foi no último dia de gratuidade de um site, que a mudança iniciada no dia chuvoso de trovão impetuoso se mostrou.  Fui trabalhar com o que dominava na cidade da garoa, poucas quadras da casa do meu tio.  O interior deixei, como tudo que era pequeno. Ganhei visão, paixões desencontradas, trânsito.  Senti-me querida, ganhei flores coloridas, CD´s e muito pra contar, sem demorar nas despedidas. Vi gente parecendo ter aonde ir sempre, busquei saber onde chegar.

Assumi meu sotaque, mudei de casa, aumentei o salto. Fui morar com amigas pra ganhar mais espaço, embora o apartamento fosse bem menor.  Aperfeiçoei meu espanhol em ousadia.  Soltei meus cachos e fiquei muito mais parecida comigo.

Planejei minhas férias pra longe, como quem quer ganhar altura. Vi a paisagem, montei o cenário, comprei uma passagem. Pensei no amor pra levar além da bagagem.  Vi possibilidades no vôo, no mar, no acaso.  Posso contar agora do Quin. Se ele quisesse, eu me aventuraria a ter uma história com ele. Quem sabe, eu não teria saído de longe, de uma vida já contada, também para me encontrar com uma vida de mais longe ainda. O espanhol havia me seduzido, não sei ao certo quais os detalhes para o encanto, mas havia um clima nos presenteando. Como um bom estrangeiro, me pediu pra conhecer aquilo que o Brasil de belo esbanja, arrebenta no mar.  No que essa terra bota cor, na gente daqui, da cidade que não se sabe o nome, traz o cheiro, na flor azul, lilás, nos olhos de quem vê, no batuque de quem ginga, brinca, apesar da contradição que se avista, o que move esse chorar  junto, faz gente de todo lado achar seu baluarte. País de favela exposta além da tela, de miséria que distorce o sorriso, da gíria que ganha o pão, lança uma rapaziada na criatividade, ganhar no tempo que não dá trégua, um dia por vez, na arte.

Voltamos ao encanto. Nos encontramos então como quem improvisa uma casinha de telhado vermelho, pinta as estrelas, aquieta o vento.  No perfume da maresia, em cada esquina uma música falava da gente.

Fui dias atrás para Europa conhecer o pai do Quin. Subi numa pedra alta e sozinha, bem longe de quem conhecia, me senti protegida pelo amor.  Tentei me lembrar quem eu era há tempos atrás, a direção que eu dava aos meus passos, com que eu sonhava… E só lembrei do que a vida me dava quando tudo me tirava…Não sei ao certo se o que eu tinha era nada ou excesso, só agora sei que nada se encaixava.

Por Lu Dornaicka

 Texto Nel (Inspirado na história de Nelma e a ela dedicado)

IDENTIDADE

Separa tudo pra amanhã,

Não esquece os cereais, as frutas, respirar bem fundo e não ir além demais

Não deixe de ler o capítulo, ligar na escola, desmarcar a hora, descansar a cachola

Ter que dormir pra acordar cedo é pra ganhar fôlego,

Acordar antes do sono terminar é de molhar o rosto

Tem que forçar pra acontecer direito,

Segurar silêncio pra bebê,

Segurar elevador pra levar blusa,

Segurar saudade se tiver que ir, e então

Segurar o choro,

É preciso por a cabeça no livro, no asilo, no trabalho, no lugar, em qualquer situação de sentido

Fala, escuta, escreve, assimila, repete, escolhe, define, ações sem tempo, um tanto perdidas

Pode uma mesma ser diversas, embora tenham dias que faltam braços, pernas e idéias

Quando mãe se culpa, como filha não se reprime mais, esposa passa corretivo, profissional se concentra,

Em casa organiza, pensando no alimento que se compra, na roupa amassada, no tempo que tem

Hoje foi também irmã, vizinha, amiga, estudante, escritora, voluntária… As vezes sendo ela mesma, outras quase ninguém

Debaixo desse sol pintado ou aquecido, as dificuldades são existentes ou inventadas

Mas no final do dia se ajoelha, se entrega, se encontra

Desacelera, pára, desliga, apaga, fecha, desamarra, encerra, finaliza

Tira o time, põe a pedra, abaixa a porta, silencia pra dormir

Quando o sono vem e os olhos se fecham, somos crianças novamente, sempre somos alguém.

 Por Lu Dornaicka

 Texto Identidade

 

DOMINGO

Joaninha enfeitada de cor, em passos leves ritmados visita a flor, faz contraste na pétala amarela, nota-se a pequena só porque é domingo.

 Acorda mais tarde pro sono acabar, vagar o tempo, espreguiçar, quebrar rotina. Acorda mais cedo pro sol nascer, ser comandado pelo querer, dia todo dedicado,  segundo a segundo seu momento exposto no relógio, seu domingo.

Dorme a rua, seus paralelepípedos se banham de sol, não faz sombra o carro, toldos. O espaço é amplo, o céu aberto, o comércio silencia de domingo.

 Descansa o barulho do movimento que buzina, fala, volta, se apressa, se altera, cedendo  permissão ao som de poucos passos, do gotejo da chuva de ontem, cantam os pássaros, alguém no chuveiro o contentamento de domingo.

 Tempo guardado ao sagrado. A Ele o todo, a Ele o tudo. Abastece-nos Deus. Bendito seja o domingo.

 Tem manjericão, molho de tomate, macarrão. Mais tempero, sobremesa, mais bagunça e falatório. Sono depois do almoço é briga entre a rede e a descontração de um domingo.

 Difere seu silêncio mais quieto, seu som mais ameno. Tem tom, sensação, singularidades, jeito, cara, o dia de domingo.

 Se está nos trilhos certeiros, escolhidos, no comando da direção, conduzindo cada dia, cada fase pela mão, o sentimento de domingo é de parada pra armazenar energia e bailar a semana. Se está nos trilhos indesejáveis, sendo levado, sem querer, sem saber onde se fará a parada, o sentimento é angústia, o som dos programas de TV desse dia, traem os esforços de ignorar o dia que antecede a segunda-feira, domingo.

 Dia de festa, churrasco, namoro, igreja, futebol, passeio, descanso, televisão, entrega, corrida, família, solidão. Dia de fazer nada. Dia de faxina, tirar atrasos, organização, balanço, reforço, consertos. Dia de fazer tudo. Dia sem igual.

 Por Lu Dornaicka

 Texto Domingo 

TODO DIA NASCE

Fumaça em lento ritmo não dança, segue seu tempo

Sol derrubado termina a tarde, aumentam faróis, noite faz balança, crianças deixam seus quintais

Manhã tranqüila dá um banho no ontem

Sapato colocado

Cadarço um laço, prontidão em tempo escasso

Esteira rotina

Já na imagem da placa de enganoso comercial, sem querer na fria garoa

Vontade de chegar é compartilhada

Na pressa o vento

Voa livre e sai a toa

Desfaz-se a trança

Reparte o cabelo, ajeita início sóbrio, sem sobressaltos

Entendo o dia – menino vaidoso – oferece tempo e recomeço

Com a confiança em destaque de quem não cessa em nascer

A todos impõe: Vai!

Por Lu Dornaicka

 Texto Todo Dia Nasce

MEU DEUS DE PERTO

Não foi a graça que pedi

Céu aberto, vôo alto, na paralela, em outro tempo, trouxe a mim um tanto muito além

 Quis ver uma estrela, sem saber olhar pro alto, breu que via pedia constelação

 Me direcionei, como quem força o alvo, inventa a linha reta, segue por querer sem ter a seta

Sem entender o contorno extenso do Divino, ultrapassando minhas estradas tortas, restrita visão,  encoberto o luar, tentei trazer a luminosidade que não se acende nem se apaga por querer, concedida por graça, aceita de cima, sentida e amém

 Aquele que habita em mim,  é luz que não se finda, candeeiro, diante de ti todo joelho se dobra, coração extremece

Meu Deus a frente

Quis  o sol, o amarelo belo, aceitei a chuva torrencial, a lama

Pé a caminhar

Quis a festa, a música, aceitei o esquecimento, o silêncio

Cabeça erguida, sem ter pena

Não foi a graça que pedi

Céu aberto, vôo alto, na paralela, em outra tempo, trouxe a mim um tanto muito além

Perto está meu Deus, com nada me inquietarei, Perto está meu Deus

 Por Lu Dornaicka

 Texto Meu Deus de Perto 

 

ENCONTROS

O sol me obriga atravessar a rua. A sombra estreita  abriga a fila que caminha a gente,  como se fosse proibido insistir pisar no asfalto quente.  A imagem brilhante que vejo do lado de lá ilumina a parede, acende o dia, alegra o meu…

Queria assim como quem se esconde do calor, atravessar o oceano, ver um lugar novo, conhecer que moeda que se paga, que palavras se fala, qual o tom  pintado de um outro céu, o que se põe a mesa, queria sentir  novos gestos a me comover…

Por Lu Dornaicka

 Trecho do texto Encontros (Inspirado na história de Josiane Maueua e a ela dedicado)

 

MUDANDO A ROTA

Penso nos desvios e movimentos todos de ligação. Meu continente foi trocado. Nasci no africano e ela no sul-americano…

…Com a vida fazia a matemática toda, na direção de aumentar o que era bom nos meus dias, ocultar o frio, a dor, ausências.  Não havia velocidade, passos largos. O andar dela, montou meu caminho com chegada. O andar dela, nasceu os filhos que quero ter. O andar dela,  me trouxe de volta. O andar dela é imagem na minha saudade.

Por Lu Dornaicka

 Trecho do texto Mudando a Rota (Inspirado na história de Énio Maueua e a ele dedicado)

 

FRATERNIDADE

Despertador invade o momento como tirano, grita a hora e seus minutos, certo de dever cumprido. Instante que se segue, leva o som consigo, silencia, transferindo a responsabilidade de levantar pra Francisco. Banho gelado pro corpo acordar. Café pra encorajar, com  margarina é pão pra ganhar o dia. Olha pro céu e decide se é bicicleta ou caminhada. Bate o portão e pedala pra valer, pra trabalhar e cadenciar a vida.

Quem esbarra nele como se fosse menor, não sabe de suas grandezas. Quem ignora sua imagem não sabe o que o levou até ali. A mãe de Francisco queria que ele fosse alguém que direcionasse, inferisse, se alimentasse de comidas coloridas por saber e tivesse mais felicidade do que havia tido até ali.  Hoje seu trabalho foi pesado, exigiu abstrair o igual da rotina, desigual que o tira de cena, foi tempo de passear o pensamento, proteger sabedoria. Ainda assim, voltou pra casa leve, cantando, por um detalhe em seu dia, querendo ensinar algo novo aos seus filhos e estar perto de suas escolhas.

Todos os dias quer algo de presente: um sorriso, uma sombra, um fazer o bem. Às vezes alcança e ganha o dia todo de graça, outros sente como quem se apóia no vento, como no dia que sua camisa surrada foi motivo de risada. Sua saída pela direita, foi  erro de contramão. O ônibus não veio e a chuva foi pontual.  Quem não viveu dias com cara de invertido? Nesse pensei que se houvesse um instante perfeito seria aquele que alguém leria o olhar de Chico, encontrando seus talentos, o dando direção. Que se aprofundasse nos melhores trechos do cotidiano de sua vida feliz. Feliz? Dependendo do ângulo que se pega, felicidade se nega. Se na imagem do lápis de cor monta-se a arte, é bom o que se vê de um ponto colorido.

Francisco consegue ver sempre meio a tempestade, arco-íris, que se não surge, ele pinta. Quem dele se aproxima em verdade, percebe Deus o habitando e tem vontade de ficar perto, fazer por ele, chorar sua dor, sorrir sua simplicidade. Percebi na sua imagem, a grandiosidade da fraternidade. Quando se está perto, junto e atento, se nota, se sensibiliza, se quer, se faz, se move. A distância inventa a indiferença. Percebo agora a igualdade no meio da diversidade toda e nas ruas esbarro em mim mesma em outros trajetos, em minha mãe com outra feição, em meus irmãos com suas singularidades. Se não ignoro o que se passa com aquele que me olha, construo uma ponte que parte de meu peito e chega. Se não consigo dizer nada, ao menos consigo retribuir um olhar respeitoso de quem já está conseguindo se olhar no espelho.

 Por Lu Dornaicka

 Texto Fraternidade

 

ILUSÃO

…Andei na chuva pra passar, deixei ela chorar afim de me misturar

Tomei o lugar de quem vai, pra gastar sentimento no cansaço

Tudo se tornou um céu que não termina, me fazendo flor plantada em vaso de menina.

Por Lu Dornaicka

 Trecho do Texto ILUSÃO