
A chuva desavisada, os pés no chão antes da hora. Estive buscando nos trilhos de uma vidinha regrada, algo que nem sabia, muito menos se queria receber o que vinha.
Como um trovão gritando, amedrontando meu cotidiano, o não ecoou pra mim. Na empresa não havia mais espaço pra minha cadeira, pro meu vocabulário. Quando percebi, me liberava o lugar onde todos os dias meu tempo se perdia, da manhã me escondia, ao entrar pela porta de vidro que o sol segurava. Estava livre, e por uns segundos essa sensação me elevava. Não entendi porque presa me sentia e chorei ao sair pela última vez.
Há seis anos namorava. Sem salário, com as prestações da cama que não dormiria, a imagem do bolo se desfazia. Estava derretendo meu sonho daquele ano. Na compaixão e negativa da frase “podemos ser amigos” ele me sorriu e foi buscar em outra o que não achava mais comigo. Meu tempo vazio, minha imagem desbotada.
Senti o ardor de quem anda no deserto. Uma absoluta e estranha certeza me fez pisar firme na areia. Inventei um caminho curativo, sonhei um sonho sem restrição e decidi o que buscar pra superar os quarenta graus do chão.
Meu currículo foi pra várias gavetas, envelopes, agências, empresas, mãos alheias, sites e links. Foi no último dia de gratuidade de um site, que a mudança iniciada no dia chuvoso de trovão impetuoso se mostrou. Fui trabalhar com o que dominava na cidade da garoa, poucas quadras da casa do meu tio. O interior deixei, como tudo que era pequeno. Ganhei visão, paixões desencontradas, trânsito. Senti-me querida, ganhei flores coloridas, CD´s e muito pra contar, sem demorar nas despedidas. Vi gente parecendo ter aonde ir sempre, busquei saber onde chegar.
Assumi meu sotaque, mudei de casa, aumentei o salto. Fui morar com amigas pra ganhar mais espaço, embora o apartamento fosse bem menor. Aperfeiçoei meu espanhol em ousadia. Soltei meus cachos e fiquei muito mais parecida comigo.
Planejei minhas férias pra longe, como quem quer ganhar altura. Vi a paisagem, montei o cenário, comprei uma passagem. Pensei no amor pra levar além da bagagem. Vi possibilidades no vôo, no mar, no acaso. Posso contar agora do Quin. Se ele quisesse, eu me aventuraria a ter uma história com ele. Quem sabe, eu não teria saído de longe, de uma vida já contada, também para me encontrar com uma vida de mais longe ainda. O espanhol havia me seduzido, não sei ao certo quais os detalhes para o encanto, mas havia um clima nos presenteando. Como um bom estrangeiro, me pediu pra conhecer aquilo que o Brasil de belo esbanja, arrebenta no mar. No que essa terra bota cor, na gente daqui, da cidade que não se sabe o nome, traz o cheiro, na flor azul, lilás, nos olhos de quem vê, no batuque de quem ginga, brinca, apesar da contradição que se avista, o que move esse chorar junto, faz gente de todo lado achar seu baluarte. País de favela exposta além da tela, de miséria que distorce o sorriso, da gíria que ganha o pão, lança uma rapaziada na criatividade, ganhar no tempo que não dá trégua, um dia por vez, na arte.
Voltamos ao encanto. Nos encontramos então como quem improvisa uma casinha de telhado vermelho, pinta as estrelas, aquieta o vento. No perfume da maresia, em cada esquina uma música falava da gente.
Fui dias atrás para Europa conhecer o pai do Quin. Subi numa pedra alta e sozinha, bem longe de quem conhecia, me senti protegida pelo amor. Tentei me lembrar quem eu era há tempos atrás, a direção que eu dava aos meus passos, com que eu sonhava… E só lembrei do que a vida me dava quando tudo me tirava…Não sei ao certo se o que eu tinha era nada ou excesso, só agora sei que nada se encaixava.
Por Lu Dornaicka
Texto Nel (Inspirado na história de Nelma e a ela dedicado)