DE NOVO TUDO NOVO

Anulo essa idéia

Não desfaço o laço, nem dou presente embrulhado

Admito, ando fora dessa risca se encontro em mim um menino bendito e descalço

Então me enrosco em fitas vermelhas, coloridas de boas intenções

Não nego a árvore de Natal piscando na minha batida acelerada

Acendo uma estrela na brincadeira

Repreendo o sem sentido da vida focada só em si

Agradeço a união na ceia, abstraio as ausências desse dia

Sinto A Presença

Seguro todo o amor em mim

Agora sim, desejo à você

Um Natal no tom dAquele que nasce!

Um Ano preenchido, lotado, amado e bem cuidado

Sem o vão entre datas, entre pessoas

Na contramão, seguindo de carona, levando no peito

Pro novo ser no agora e nunca mais lá no primeiro!

 Por Lu Dornaicka

 Texto De Novo Tudo Novo

OUTRO OLHAR

A corrupção pesa a pobreza magra e faminta

Revela a maldade na bondade dissimulada, que tira toda casca no dente e toma a fruta

pra si

Mas a vida é encontrada em todo endereço que há espaço pro passo

Ao subir a ladeira, ao descer na ribeira

Na sala, na discussão, na frase dita

Quando os olhos imploram e a boca se cala em entendimento

Nas rugas alcançadas pelo tempo, nas dunas formadas pelo vento

Em frente a porta, na conversa disposta, na carência que pede atenção

Vida no gesto, na cadeira que espera alguém

Vida na lata, no escuro, no caderno xadrez, na correnteza

Vida no improvável, na barriga que se expande pra criação

Vida no cabelo do sábio fantasiado de louco

Vida na simplicidade de ser, no drible da dor

Vida que altera o sem graça, desvia da avalanche que pára, da palavra que bate, do ruim

em empate, do programa apelativo diminui ibope

Pra ver vida é ajustar enfoque, ignorar um tanto

Ser sal e acender no gesto a travessia

Por Lu Dornaicka

 Texto Outro Olhar

SE HOUVER SENTIDO

Na caixa de madeira deixo o nexo, rasgo autógrafo, esvazio de papel, molho a poeira

Longe os excessos, cortadas arestas, jogadas as sobras, dado o que não se leva

Enrolo o tapete vermelho, desfaço a faixa preferencial, vendo o anel

Desfaço cilada que faz o maior querer ser peito inventado, corpo moldado, cabelo forçado, o rosto que se teve retornado

Me banho da transformação comedida, bem vinda auto-estima

Não concedo melhor lugar, não elaboro a frase com cautela, não dedico honrarias aquele que tem poder, com o que pagar, visual ou fama, nem todo servir, toda atenção, todo agrado, não por isso, por isso não

Nada feito, se é pra ser visto

Nada no lugar, se é só pra cansar

Nada é barato, se é todo inútil

Não compro sapato apertado liquidado

Rejeito a rotina que leva a vida toda pro bolso

O que ignoro ou não tenho já não me pára, nem me compara

Se está lotado, atravesso a rua e preencho o outro lado

Tento a leveza, roupa larga, o campo florido

Se invisto no que sou, cuido melhor da vida do outro, cedo meu lugar pra ver sua perspectiva

Cansei de Darwin, dos que riem da ignorância, de frases feitas

Sou o revide, palavra contida, o que agride, mão estendida, tapa, omissão

Sou o que abraça, vida dedicada, o que enlaça, pão negado, graça, elevação

Sou o altruísmo, mal reprimido, o que disfarça, não comenta, ameaça, afeição

Quando consigo ser melhor do que sou, Deus já me alcançou.

 Por Lu Dornaicka

 Texto Se Houver Sentido

PODE ATÉ ESPERAR

Tem o tempo dizendo que sempre um tempo haverá em segredo

Pra pintar vaidade, calçar necessidade:

Centavo por Centavo

Pra saborear a fruta escrita, começar na leitura novo ato aos setenta:

Página por Página

Pra granular brigadeiro, colar pro mosaico, montar quebra cabeça:

Um por Um

Pra aprender a lição, o trabalho, dança de platéia, uma distração:

Passo a Passo

Pra qualquer cura, encontrar o perdido, amigo ou querido, conquistar, nascer, ultrapassar, esquecer:

Dia após Dia

Pra cantar, escrever, dizer, ler, poetizar:

Palavra por Palavra

Pra se unir, beijar, se reconciliar:

Face a Face

Pra completar a hora, esperar no aeroporto, obter a resposta:

Minuto a Minuto

Pra enrolar novelo, fazer a mecha, ver a roupa:

Fio a Fio

E o ar leve em movimento cochicha em vento, a esperança por todo lado,

Pra levantar, erguer, mover, transformar

Tem o tempo  dizendo que sempre um tempo haverá em segredo

Por Lu Dornaicka

 Texto Pode até Esperar

 

PRIMEIRO EU

Se aproxima na tentativa. Em sua blusa bandeira desbotada perdendo força, no rosto marcado sinais de ausências e distrações, cabelo opaco, a intonação do que oferta implorando moeda ou qualquer coisa dada.

Quando esse pequeno chega, chega primeiro a precariedade, depois ele quem chega.

Perfume ventilado, diversos apetrechos notados, carro importado, roupa de corte invertido, marcação com valor investido estampado e a cor acetinada, determinando na intensidade e querer de quem usa ser bonita.

Meu caro ilustre onde chega, chega primeiro o cifrão, depois ele quem chega.

Diz que gosta do igual, no gênero,  agüenta intolerância, ironia, a ignorância, ser mais notado ou ignorado, se opõe no  visual, segue no salto, enfrenta os contrários.

Esse oposto onde chega, chega primeiro o que parece trocado, depois ele quem chega.

O dono, o proprietário, o chefe. O que dita as regras, comanda, manda e desmanda. Faz discípulos,  direciona, influencia, conduz e determina.

Aquele do cargo onde chega, chega primeiro o poder, depois ele quem chega.

Beleza sem argumentos e artifícios, sem retoques nos cílios, cabelo pra todo corte, rosto desenhado com toda proporção, perfeito corpo inteiro, seja rei, seja rainha.

O belo onde chega, chega primeiro a imagem, depois ele quem chega.

Um prato, uma fatia, um ingresso, um sozinho, sem parceria, sem companhia, o silêncio das palavras na sala, ninguém na hora vaga.

O solitário onde chega, chega primeiro a solidão, depois ele quem chega.

 Uma aparência, um sinal, uma preferência, uma característica, um emblema, um título, um perfil, uma deficiência, nos ultrapassam.

Um tanto nos alteram, nos moldam, estabelecem nossas relações, nos enganam, nos orientam, nos atrasam, nos revelam…

Quando chegamos, desconfiamos de quem somos.

 Outro dia encontrei um homem que nada me dizia sobre o que tinha. Sua aparência não chegava aos meus olhos, nada me indicava seus gostos, aptidões e segredos. Me aproximei de quem ele era, me achei diferente.

 Por Lu Dornaicka

 Texto Primeiro Eu

Trecho do Texto SUA MOCHILA, MEU TÊNIS

Nos labirintos das ruas, buscava sem parada, feito gente que recebe do Divino o querer de presente e ganha passagem.  Semáforo forçando brecada, pessoas transitando em toda direção, no atropelo por algum motivo ou sentido nenhum.  Outdoor falsidade congelada, vendedor de bala impondo questões da vida. Senhora com passos calmos da idade, levando maçãs e pensamentos distantes; Areia pra construção aquecendo barriga vazia do vira lata e sol clareando o verde das folhas presas voando, alcançando minha visão. O som que ouvia era música que ganha o ouvinte no refrão, sem merecer atenção, forjada, que acaba feito gelo mergulhado.

    Na minha vez, destoava a ausência no feriado, o jantar que não ia, a vela que não acendia. O resultado da soma dava ímpar e eu queria o encaixe do par.

    No querer transformar o roteiro e buscar alternativas, esbarrei-me em quem queria perto, sem procurar, como quem chega ao momento, se forma, se cura, se ajoelha.

    Sem ser meu namorado, era parceiro. As folhas parecendo de outono, davam  recados de Agosto que viria. Enfrentamos o frio, deixamos folhas secas rodopiarem ao vento, partirem deixando espaço ao novo.

    Seu humor me credenciava, levava tristeza que passava por mim.

    Sem você garoava, perdia parte o som, extensão, a boa maneira. Juntos, pra lá, pra cima, pra vida inteira, amor inteiro, agradecida, abençoada como uma videira.

 Por Lu Dornaicka

TRECHO do Texto Sua Mochila, Meu Tênis

BOM DIA

Cochilo o som

Desvio da quina, do breu, do chão desnivelado

Evito a dispersão das intenções desavisadas

Piso devagar pra ver acordar

Espio esperando raiar

Libero a manhã  pra dentro, na pele, na visão

Chega subindo tudo, suavemente o sol começando de novo

Bebo do céu, me faço pássaro no vôo

Agora, ao café com leite

Solto a pausa, me junto ao movimento.

Por Lu Dornaicka

Texto Bom Dia

COLEÇÃO DE FIGURINHA

Manhã se incomoda, põe sol pra subir, a gente pra começar a raiar o dia.

Vejo do décimo andar, brincadeira de quintal sem regra, com sede, balde, bola, skate.

Me pega esse som matinal, me tira do atual, me  leva pra infância de sabor adocicado, de aroma que não vem mais. De prazer completo de quem vive o presente, como se outro tempo não existisse. Vivo o deleite do instante  que me retorna para esse momento, que de tão distante, flagrado por outras pessoas, enfeitado  por outras  flores e prazeres, modas e sentidos, parece ter sido de outra:

FESTA JUNINA,

Cheiro de fogueira e quentão,

Sabor pé de moleque, na rua fechada contornada a amarelinha com tijolo de construção e a boa sensação de se chegar primeiro ao céu!

DOMINGO DE PÁSCOA,

casca de ovo pintada com tinta colorida, lotada de doce e requinte de madrinha

ALMOÇO,

da minha mãe, de meus avós pra vizinhança,

cheiro de feijão branco, feijoada, grão de bico e o riso escancarado chamando festejo.

PASSEIO DE BICICLETA,

dando direção ao meu destino, querendo ter mais idade, tentando ser percebida, vento no rosto sorrindo contentamento, liberdade, graça.

SHOPPING MORUMBI,

brincadeira no terreno, meio a cimento, morros de areia, patinação no gelo e bom cheiro de amendoim da Sears faturando no apelo.

PANDA,

pra comprar dip lik, doce de leite em formato de pingo, xícara de amendoim japonês, escolher uma bala no baleiro, caderno, papel de seda colorido, cola e carretel pra esperar o vento e fazer da tarde o roteiro.

BRINQUEDOS,

aquaplay, cai não cai, músicas dos comerciais da Estrela, a fantasia, lançamento,  a mania, a euforia, toda alegria.

PAPALARIA,

estojo de dois lados, papel de carta, caderno iniciado, livro novo, seu cheiro nos preenchendo em cada página virada.

HORA DO RECREIO,

gosto de gelinho no portão da escola, morango de saquinho do leite de soja, gosto de açúcar queimado dividido debaixo da árvore,

SOMBRINHA,

nos guardando do sol pelo caminho da escola, Alê e eu, começando meio dia a trajetória.

SABORES,

chocolate sensação de laranja, gelatina de cereja feita por minha avó, macarrão na manteiga, feijão arroz e purê, café com leite, achocolatado antes de dormir.

ESPERADO,

Natal e visita de qualquer pessoa.

AMIZADE,

capuccino, esmalte e torta de pêssego, vem Simone, inquieta, direta.

Casa que tinha sentimento de um tempo, foi  lugar pra dormir, extensão de minha morada, lotada de momentos para recordar, lugar de kelly amiga pra sempre chamar.

Alê pra vida compartilhar e dizer grande amiga, Zaga, grata.

Foi chegando o momento Keep Cooler,  calça jeans e camiseta, mais aparentes as tribos pra se pertencer; sucedendo momentos que predominam as escolhas, desencontros, frustrações, descobertas, utopias, amores, ideais, identidade…  Aqueles que todos os dias nos reconhecemos, nos perdemos, sorrimos a chegada ou queremos ultrapassagem. Que dia é hoje?

Por Lu Dornaicka

 Texto Coleção de Figurinha

 

O CAMINHO, CONTORNO DO DIVINO

Pêssego sabor, na cor que não poupa o açúcar na polpa, na época

“Para tudo há um tempo, para cada coisa há um momento debaixo dos céus”

Eclesiastes nos tira o véu

A fruta de Outubro, não se saboreia igual em Maio

Estação fria, chove sem aviso,

Vem de lado, de frente, cede a sede, abastece

Se fecha o tempo e atropela, entristece, faz a molhadela

Relógio quebrado não pára o tempo

Nem perante dor tamanha,

Seguem os dias, seguem as noites, sem diálogo

A lua imponente nem se esconde,

O frio ignora trajes

Lembro então Daquele que me guia

Diante Dele a perfeição

Vento que sopra e tudo desloca

Ainda que não entenda a visão do alto, a manobra

De suas mãos, o melhor agora, o melhor depois

Aquieta-me a confiança

Coloca-me em cobertura

Amplio minha visão por determinação

Tal quando, tempo exato a frente

É do amanhã, se não nessa manhã

Esperança que me entusiasma é mais que meia luz

Resplendor

Por hora, hoje não vigora

Não agora

Que deixe outrora

Que venha na aurora, sem demora

O motivo, o alívio, o toque, a melhor raiz, a graça

Se por um triz o vento bate a janela, movimento me sinaliza Aquele que me leva, Aquele que sempre me faz chegar, Aquele que me eleva pro mal passar.

 Por Lu Dornaicka

 Texto:  O Caminho, Contorno do Divino

NEL

A chuva desavisada, os pés no chão antes da hora.  Estive buscando nos trilhos de uma vidinha regrada, algo que nem sabia, muito menos se queria receber o que vinha.

Como um trovão gritando, amedrontando meu cotidiano, o não ecoou pra mim. Na empresa não havia mais espaço pra minha cadeira, pro meu vocabulário.  Quando percebi, me liberava o lugar onde todos os dias meu tempo se perdia, da manhã me escondia, ao entrar pela porta de vidro que o sol segurava. Estava livre, e por uns segundos essa sensação me elevava. Não entendi porque presa me sentia e chorei ao sair pela última vez.

Há seis anos namorava. Sem salário, com as prestações da cama que não dormiria, a imagem do bolo se desfazia.  Estava derretendo meu sonho daquele ano. Na compaixão e negativa da frase “podemos ser amigos” ele me sorriu e foi buscar em outra o que não achava mais comigo.  Meu tempo vazio, minha imagem desbotada.

Senti o ardor de quem anda no deserto. Uma absoluta e estranha certeza me fez pisar firme na areia.  Inventei um caminho curativo, sonhei um sonho sem restrição e decidi o que buscar pra superar os quarenta graus do chão.

Meu currículo foi pra várias gavetas, envelopes, agências, empresas, mãos alheias, sites e links.  Foi no último dia de gratuidade de um site, que a mudança iniciada no dia chuvoso de trovão impetuoso se mostrou.  Fui trabalhar com o que dominava na cidade da garoa, poucas quadras da casa do meu tio.  O interior deixei, como tudo que era pequeno. Ganhei visão, paixões desencontradas, trânsito.  Senti-me querida, ganhei flores coloridas, CD´s e muito pra contar, sem demorar nas despedidas. Vi gente parecendo ter aonde ir sempre, busquei saber onde chegar.

Assumi meu sotaque, mudei de casa, aumentei o salto. Fui morar com amigas pra ganhar mais espaço, embora o apartamento fosse bem menor.  Aperfeiçoei meu espanhol em ousadia.  Soltei meus cachos e fiquei muito mais parecida comigo.

Planejei minhas férias pra longe, como quem quer ganhar altura. Vi a paisagem, montei o cenário, comprei uma passagem. Pensei no amor pra levar além da bagagem.  Vi possibilidades no vôo, no mar, no acaso.  Posso contar agora do Quin. Se ele quisesse, eu me aventuraria a ter uma história com ele. Quem sabe, eu não teria saído de longe, de uma vida já contada, também para me encontrar com uma vida de mais longe ainda. O espanhol havia me seduzido, não sei ao certo quais os detalhes para o encanto, mas havia um clima nos presenteando. Como um bom estrangeiro, me pediu pra conhecer aquilo que o Brasil de belo esbanja, arrebenta no mar.  No que essa terra bota cor, na gente daqui, da cidade que não se sabe o nome, traz o cheiro, na flor azul, lilás, nos olhos de quem vê, no batuque de quem ginga, brinca, apesar da contradição que se avista, o que move esse chorar  junto, faz gente de todo lado achar seu baluarte. País de favela exposta além da tela, de miséria que distorce o sorriso, da gíria que ganha o pão, lança uma rapaziada na criatividade, ganhar no tempo que não dá trégua, um dia por vez, na arte.

Voltamos ao encanto. Nos encontramos então como quem improvisa uma casinha de telhado vermelho, pinta as estrelas, aquieta o vento.  No perfume da maresia, em cada esquina uma música falava da gente.

Fui dias atrás para Europa conhecer o pai do Quin. Subi numa pedra alta e sozinha, bem longe de quem conhecia, me senti protegida pelo amor.  Tentei me lembrar quem eu era há tempos atrás, a direção que eu dava aos meus passos, com que eu sonhava… E só lembrei do que a vida me dava quando tudo me tirava…Não sei ao certo se o que eu tinha era nada ou excesso, só agora sei que nada se encaixava.

Por Lu Dornaicka

 Texto Nel (Inspirado na história de Nelma e a ela dedicado)