
De cuidado, flores e verdes contornava seu cercado. Nos envolvia em cenários cheio de frescas sombras que fazia com detalhes e árvores. Dialogava o jardineiro com a terra, traduzia o que comunicava a nuvem passeadeira e entendia o que viria quando ela não chegava. Sabia de todas sementes, plantios, pragas e tudo explicava como alguém satisfeito, nascido pro cultivo.
Selecionava com carinho as melhores frutas e hortaliças como quem separa preciosidade e contribui com a medalha.
Ginasta todo tempo, sua Clara se empenhava pra alta performance em menor tempo. Disciplina, palavra de ordem. Refeições balanceadas, horas lotadas de treinos, persistência e todo restante adaptado a sua rotina. Saboreava chegadas, as conquistas, mas sabia do preço. Férias não a colocava em descanso, momentos suspensos, sensações proteladas. Entendia que nem tudo que desejava alcançaria com sua ação, mas começar e finalizar seus movimentos, preparar seu corpo, enfrentar desafios, dependia de sua transpiração, o que potencializava ainda mais a sensação de conquista no esforço, fazendo valer a moeda. Sexta-feira, dia de concentração pra competição, não pôde encontrar sua prima no aeroporto.
Manu passou um ano e meio numa região precária do Brasil desenvolvendo trabalho humanitário, educacional. Foi como vai uma menina idealista, voltou como quem volta uma experiente de guerra, madura, com novas referências de ter, interferências que a cresceu, outras indagações e decisões de compra. Chegou valorizando água quente pro banho, imagens coloridas de ambientes organizados e inteiros. Quase tudo que via parecia faltar uma parte, um trecho: de camiseta e pé descalço, almoço sem janta, trabalho sem salário, coberta curta. Agia, repartia o pão, inventava soluções por questões de sobrevivência, abstraía o que conseguia da dor, enfrentava toda forma de adversidade, leões e tempestades, movida pelo amor e indignação. Voltou pra perto de casa, envolvida em outro projeto social. Sua mãe agradecida abraçava a causa e Manuela.
Cuidava da filha. Esperava ela chegar acordada como se nunca tivesse saído de lá. Cuidava de sua rotina, de suas refeições, de seu cansaço. Organizava seu dia, colocando na frente as necessidades que sua menina nem sabia que tinha. Trocava sua cortina, mudava a cama de lugar, apagava a luz, trazia o chá. Tudo sem ser invasiva, sendo parceira, afetiva. Havia em cada gesto, uma silenciosa mensagem de admiração de uma mãe em tempo integral. Conversava com Deus sem reservas, contava sobre seu dia cheio observações e sentimentos, chorava quando precisava, reclamava em desabafo e sempre dizia convicta ser Deus seu grande amigo vivo, invisível. Sua amiga Tetê achava graça. Missionária, cheia de bom humor e fé. Vida toda dedicada, tolerante, a quase ninguém julgava. Perto dela tudo parecia mais fácil, mais certo. Sabia colocar as sandálias e caminhar ao lado, ajoelhar sem reservas, fazer curativo com palavras, sem falar diretamente do Divino colocar qualquer um diante do seu altar. Trabalhava na igreja, mas fora do templo exercia sua fé. Era uma espécie de abraço, sorriso que chega perto, um traço de esperança e certeza sem explicação.
Vida se esbarrando em um e no outro, que em algum momento muda seu contraponto e continua no compasso a tocar outro um que alcança.
O de skate, deixou a idéia do movimento em equilíbrio e foi desviando daquele que caiu. Outro passou o dia procurando lata pra achar com que se paga e se afastar da fome que mata, de um lado pro outro, passando por aí. Recebeu a lata de um que foi de fone isolado na música, sempre encontrado por mensagem, e-mail, torpedo, lotado de tecnologia, do trabalho até férias em fevereiro.
Em qualquer trecho cumpre-se um papel, cheio de dependências, choque de influências, que afetam quem chega, quem passa e quem não pára. Não há quem seja, saiba ou tenha tudo, nem o contrário. É preciso encontrar seu dom, daquele que afina um tom pro canto, quem dera nunca pro pranto, entregando mais de si por aí, deixando bom legado.
Cada um montando seu dia, focando no que quer, no que tem de melhor ou precisa, criando imagens da diversidade, revelando que ninguém preenche todos os cenários, tão pouco deixa de aparecer em algum.
Por Lu Dornaicka
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