NOVA TODAS AS COISAS

Do outro lado do muro, vi pedra pequena acesa apagar gente

No farol movimentado, notei exausto, senhor sedento vendendo água e atenção

Tentei identificar em qual ladeira, o mendigo havia perdido a estribeira

Vi lamentar o aflito por sua ingrata profissão, longe do movimento do dia e de extensa solidão

Lamentei ver uma vida casada com alguém que tinha mais recursos que afeição, oprimida a bela cedia como quem deve pelo pão que come, pela cama que dorme e se convencia todo dia que era feliz meio a quantia

Senti vê-lo debilitado como maquinário enguiçado, no esforço da piada, acender a sala e acabar com a lamentação

Na virada de um segundo, vi mulher ser usada, humilhada e lançada como chiclete que perde o gosto e a sensação

Achei paciência no moço contando moedas pro feijão, contradição naquele que passou a frente por uma nota só em sua mão

Achei tristeza no homem sujo, de barba e pobreza, pentear o cabelo como quem acerta uma situação

Pensei como seria bom, voltar no tempo, obedecer uma seta, acertar pela direita, não se perder da meta

Escrever outro diário, evitar um encontro, o superficial

Saber mais, ir um pouco mais

Mas retornar não dá passaporte do bem seguir em garantia

Sabotam contingências, ventos formam nós, obstáculos em nosso cenário nos enquadram

Diante do que somos, no avesso ou inverso, aquele que faz nova todas as coisas

Diante do caos, aplaca a tempestade o divino

Diante de Deus, a chave da vida se abre de novo em espaço aberto, livre

Por Lu Dornaicka

 Texto Nova Todas as Coisas