
Despertador invade o momento como tirano, grita a hora e seus minutos, certo de dever cumprido. Instante que se segue, leva o som consigo, silencia, transferindo a responsabilidade de levantar pra Francisco. Banho gelado pro corpo acordar. Café pra encorajar, com margarina é pão pra ganhar o dia. Olha pro céu e decide se é bicicleta ou caminhada. Bate o portão e pedala pra valer, pra trabalhar e cadenciar a vida.
Quem esbarra nele como se fosse menor, não sabe de suas grandezas. Quem ignora sua imagem não sabe o que o levou até ali. A mãe de Francisco queria que ele fosse alguém que direcionasse, inferisse, se alimentasse de comidas coloridas por saber e tivesse mais felicidade do que havia tido até ali. Hoje seu trabalho foi pesado, exigiu abstrair o igual da rotina, desigual que o tira de cena, foi tempo de passear o pensamento, proteger sabedoria. Ainda assim, voltou pra casa leve, cantando, por um detalhe em seu dia, querendo ensinar algo novo aos seus filhos e estar perto de suas escolhas.
Todos os dias quer algo de presente: um sorriso, uma sombra, um fazer o bem. Às vezes alcança e ganha o dia todo de graça, outros sente como quem se apóia no vento, como no dia que sua camisa surrada foi motivo de risada. Sua saída pela direita, foi erro de contramão. O ônibus não veio e a chuva foi pontual. Quem não viveu dias com cara de invertido? Nesse pensei que se houvesse um instante perfeito seria aquele que alguém leria o olhar de Chico, encontrando seus talentos, o dando direção. Que se aprofundasse nos melhores trechos do cotidiano de sua vida feliz. Feliz? Dependendo do ângulo que se pega, felicidade se nega. Se na imagem do lápis de cor monta-se a arte, é bom o que se vê de um ponto colorido.
Francisco consegue ver sempre meio a tempestade, arco-íris, que se não surge, ele pinta. Quem dele se aproxima em verdade, percebe Deus o habitando e tem vontade de ficar perto, fazer por ele, chorar sua dor, sorrir sua simplicidade. Percebi na sua imagem, a grandiosidade da fraternidade. Quando se está perto, junto e atento, se nota, se sensibiliza, se quer, se faz, se move. A distância inventa a indiferença. Percebo agora a igualdade no meio da diversidade toda e nas ruas esbarro em mim mesma em outros trajetos, em minha mãe com outra feição, em meus irmãos com suas singularidades. Se não ignoro o que se passa com aquele que me olha, construo uma ponte que parte de meu peito e chega. Se não consigo dizer nada, ao menos consigo retribuir um olhar respeitoso de quem já está conseguindo se olhar no espelho.
Por Lu Dornaicka
Texto Fraternidade