
Recolheu sua barraca Mariá, juntou seus trocados e atacados
Carregada sem incômodo, foi em frente, foi de ônibus…
Com sua blusa cobriu em silêncio o homem descalço cheio de percalços
Como se não houvesse alternativa, aqueceu
Com tato, tirou inseto das costas do passageiro, sem impasse e que ele notasse
Como se o bicho fosse um seu a incomodar, o mandou pra outro canto, espantou
Já na rua na contra mão, jogou papel caído no lixo
Como se a rua fosse seu jardim, apanhou
Recolheu jornal do vizinho, como um gesto normal “facinho”, colocou entre o vão do portão
Como se o do lado fosse seu, facilitou
Todo seu compartilhado, todo do outro pro outro vigiado
Como se o aprendido e adquirido, do que vê ou do que é visto, tivesse implícito a contribuição, cedeu
Teve o dia que deu o brinquedo e teve o abraço que sentiu em segredo
Teve o dia que levou arroz, trouxe feijão, levou um tanto e trouxe dois
Teve outro que levou tudo e não foi notada, nem percebeu a ignorada
A move no anonimato, a crença, o espontâneo do hábito, toda compaixão
Impulsiona aquele que passa ao novo ato na sequência
Força a engrenagem gesto solidário, suave, revolucionário.
Por Lu Dornaicka
Ela Solidária