CADA UM

Quando a moda tirava seu vestido, a fôrma a produzia toda bela e igual

Surgia a estrela, na esteira e em série, produzida na tentativa de um retrato visto em comercial

Ele com saudade do que nela era dela, esperava o efêmero passar

Como alta temporada acaba e só fica quem habita, aguardava sua remada de volta

Ela retorna, contra ataca

Ele arquibancada

Ela dava todo jeito, sem pretensões

Ele falava alto, evitava gravata e muito pouco sua camisa xadrez

Ela na persistência de frutas, verdes, grãos e sementes

Ele era roteirista

Ela acordava as seis

Ele tom grave na prosa

Ela discreta em rosa

Ele distraído sujava camisa, desprendido do que tinha

Ela no mercado fazia as contas, quase sempre passava sua vez

Ele sempre ao lado misturado, mas na hora do comando em voz de gigante

Ela formulava no bom humor, inventava as letras pra fazer enredo

Ele admirava suas urgências, o corpo que era seu e tudo que era ela

Ela boa de bola

Ele na retórica

Ela singular em português

Ele ímpar em matemática

Ela nunca no violão como ele

Ele nunca no abraço infantil como ela

Ela gostava do cheiro, sabor, pausa e aconchego de café, ele também

Ela fazia jejum, ele dizia amém

Cada um, uma história inteira, como uma árvore com galhos, raízes e tal, a sua maneira

Um tanto de tantos, um mesmo de poucos, valendo seu quanto

Por Lu Dornaicka

 Texto Cada Um