
O dia acendeu outro dia, o conceito foi alterado
Toda TV ficou esquecida
Música opressiva emudecida
Outdoor, um a um foi derrubado
Manipulação da mídia anulada
O que era sonho pra se ter em demasia, não mais subsistia
A moda foi extinta
Todo povo convocado
Toda imagem trocada
O dia acendeu outro dia, no espelho não me via, só refletia um outro, necessitado e faminto
Tropeçava em mim, quando esbarrava em alguém
Quando conseguia um cobertor a mais, me procurava nas ruas pra cobrir
Quem tudo tinha não era mais priorizado, nem exaltado
José descalço, sem um prato, já era alcançado
Pra ele o melhor lugar a mesa, cuidado e destaque
Até sair de si, ganhar peso, autonomia e tornar-se outro, daqueles que se vê em quem passa
O dia acendeu outro dia, a diversidade ganhou o esplendor, cada um destacando o que tinha sem pudor
Careca se exibia, cabelo armado, cabelo sem ondas, cabelo encaracolado, cabelo ralo ou multiplicado, escovado ou despenteado, sempre seu próprio, sem retoques
Na passarela destacada era a saúde, seja dela, seja dele, em corpos franzinos, esbeltos, obesos
Com curvas ou retidão, com traços de algum país, estado ou região, todo homem tinha sua beleza contemplada
Ainda que uma parte de si não existisse em plenitude, era igual considerado
O dia acendeu outro dia, cada um sendo o exato que se era,
Não se boicotava
Não se desqualificava
Não se desperdiçava em querer ser quem não se era
Se dedicava
Se lapidava
Seguia no dom, deixava legado no bem que se apoiava
Quando o dia apagou, o conceito foi revertido e tudo voltou ao embaraço que era
Na tela imagem de novela, pra toda menina desejar ser, retrato daquela
Um brinde aos das jóias e cristais
Espaço reservado aos melhores carros, aos maiores mortais
Um bolo pra festa de cachorro
Espelho imagem de si repetida
E agora meio ao breu, de lanterna a gente vai remando
Por Lu Dornaicka
Texto O Mal Dito Invertido